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NOTAS SOBRE A
ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO DE VÍDEO

DAVID PENNINGTON

David Pennington, Mestre em Comunicação, é professor
da Faculdade de Comunicação da UnB, Departamento de Audiovisuais e Publicidade,
Cursos de Fotografia e Iluminação 1, Fotografia e Iluminação 2, Som do Filme,
Produção Publicitária e Organização da Produção

 

 


ÍNDICE

INTRODUÇÃO 4
A ESCALA DA PRODUÇÃO 5
A PRODUÇÃO 5
AS FASES DA PRODUÇÃO 6
ATIVIDADES DA PRODUTORA 8
O ROTEIRO 9
ANALISE TÉCNICA 9
CRONOGRAMA 10
ORÇAMENTOS 12
CONCLUSÃO 12
BIBLIOGRAFIA 13

 

 


INTRODUÇÃO

Seja uma produção com custos elevados, ou um pequeno trabalho comunitário, um
produto audiovisual de apoio à mobilização social deverá ser sempre planejado, de forma
a otimizar as relações custo-benefício, demonstrar claramente quanto vai custar o produto,
e satisfazer demandas de aplicação de recursos. Este trabalho é voltado para a produção
audiovisual, mas é válido o mesmo pensar para qualquer outro produto, como: produção
gráfica, shows e apresentações, teatro de sombrinhas, produção de rádio...

Quanto mais complexo o produto, mais essencial torna-se a organização de sua
produção. Finalmente, é fundamental um plano de produção para endossar qualquer
orçamento, e em última análise, obter recursos para a produção. O que os financiadores
querem saber é: QUANTO vai ser aplicado, ONDE, e de que MANEIRA. Este trabalho é um
primeiro esboço sobre o assunto.


A ESCALA DA PRODUÇÃO

Estas notas contemplam um trabalho “típico profissional”, mas
devemos ressaltar que há trabalhos em escala grande, em escala pequena, e na escala
do possível. Geralmente a escala do possível acaba por ser a solução em muitos casos.
Mesmo assim, é preciso planejar: Por exemplo, se foi decidido que para uma determinada
atividade vão ser usadas faixas, é necessário ter claro o conteúdo (texto e diagramação),
fazer levantamentos de preços, ver se a primeira faixa está correta, providenciar transporte,
escada e arame de ferro galvanizado em quantidade adequada para a instalação das faixas.
Isto merece uma listagem, uma ordem de providencias, nome dos participantes e endereços
e até um plano de instalação das faixas nos lugares pretendidos. Em todas essas escalas
deve-se organizar a produção.

A PRODUÇÃO

A produção do audiovisual é um processo complexo que envolve um conjunto de
especializações. Uma equipe típica pode contar com muitos profissionais:

- Roterista: é dele o trabalho de roteirização, texto apropriado para a
produção audiovisual.

- Produtor: providencia as condições para realizar a produção, com recursos
(dinheiro ou facilidades a partir de trocas, etc.,)

- Diretor: é o responsável pelo resultado final, pela qualidade do produto
audiovisual.

- Diretor de Fotografia: cuida das soluções e qualidade da fotografia do
trabalho. Seu trabalho é na verdade uma co-direção, quase sempre. No
Brasil, é comum o diretor de fotografia fazer também a operação de
câmara.

- Operador de Câmera, ou Câmera: faz operação de câmera, Seus
movimentos, tais como panorâmicas, travellings, zoom, etc., e nas
pequenas produções, o diretor de fotografia e o operador de câmera são a
mesma pessoa.

- Técnico ou Engenheiro de Som: assegura a gravação e qualidade do som,
munido de um parque de equipamentos adequados para a finalidade.


-Editor ou montador: é quem reúne os componentes e destarte dá a coerência
final à obra. É tambem uma instância de direção, é o momento intelectual,
por excelência, na realização do filme. Usualmente o editor trabalha
juntamente com o diretor.


- Diretor de Arte: a seu cargo estão os aspectos artísticos envolvidos, tais
como coordenação de figurino e cenografia, música, etc

- Cenógrafo: responsável pelas soluções da cenografia, ou seja, as vistas ou
planos de fundo da ação.

- Figurinista: maneja os figurinos (roupas) sua conservação e disponibilidade.

- Técnico em Cinematografia: é o ´Magaiver´ da área técnica, o que soluciona
necessidades (principalmente mecânicas) junto à fotografia, iluminação e
técnica de som.

- Maquinista: é o alquimista dos problemas junto à mecânica da cena, tais
como a montagem e operação de carrinhos sobre trilhos, operação de grua,
instalação de praticáveis, etc.,

- Eletricista: encara os problemas de necessidades de energia elétrica, e é
um auxiliar precioso do iluminador.

Uma produção bem organizada é essencial para assegurar um fluxo de trabalho
adequado, e satisfazer as expectativas dos prazos, e estabelecer um orçamento, elemento
fundamental para angariar financiamentos. Inicialmente, será analisada a constituição de
um trabalho em vídeo típico, por exemplo, um comercial para televisão.

AS FASES DA PRODUÇÃO

A primeira fase corresponde ao trabalho da agência, constituído de Criação,
Argumento, Pesquisa, Roteiro e Storyboard. Em seguida, vem a fase da Análise Técnica
do Roteiro. Desta análise técnica resultam listas de produção, que permitirão viabilizar e
controlar a economia do projeto. Paralelamente, o Diretor, junto com o produtor faz uma
leitura do roteiro, e isso realimenta o processo de decisão da produção. Deve ficar claro
que o roteiro é uma instância técnica, uma ferramenta de trabalho, dotado de grande
importância no processo de realização.

A segunda fase é a Pré-Produção, onde se utilizarão asListas de Produção, e mais
dados que forem necessários para elaborar um Mapa de Produção, que descreverá em
um único espaço de escrutínio TUDO o que é necessário para viabilizar a produção; e
também se elaborará umCronograma, que permitirá alcançar as metas nos prazos previstos.
Associado ao cronograma está oCronograma de Desembolso, que controla os pagamentos
por etapas.

Um aspecto importante da produção é como orçar, ou
estabelecer o custo de um trabalho, e quais os cortes orçamentários
máximos admissíveis para manter o resultado dentro de um nicho
qualitativo preestabelecido. Predominam neste caso, fatores
subjetivos nesta determinação, tornado a expressão “qualidade do
produto” um significado algo muito pessoal. Daí o nome do produtor
e diretor serem determinantes de um resultado previsível.

A terceira fase é a captação de Imagem e Gravação de Som. É quando entram o
trabalho do diretor de fotografia, o câmera, operador de som, atores... é a “Filmagem”.
Estas atividades devem ser desenvolvidasde forma mais contínua e breve possível; têm um
tempo de desenvolvimento próprio, que varia de projeto para projeto. E o rítmo de trabalho
é muito intenso e diversificado, normalmente gerando uma situação de estresse para todos
os envolvidos, e em particular, a produção. Esta é uma atividade que não deve buscar
culpados (por erros, omissões, enganos e mal-entendidos), mas sim uma orquestração de
uma equipe heterogênea com fins a um resultado coerente, de qualidade e um fluxo de
trabalho intenso e sem choques.

Resultante da Pesquisa e já a partir da pré-produção, busca-se material iconográfico,
arquivos de imagens, fotografias, objetos que ficarão à disposição da edição do trabalho.
Fotos e recortes são gravados em mesas especiais, os table-top, e objetos e maquetes
são efetivamente filmados. São encomendadas as locuções, as trilhas sonoras e direitos
autorais são resolvidos; os trabalhos de computação gráfica e outros serviços de terceiros
são contratados.

A quarta fase é a Edição. De posse de todo o material para editar, e um plano de
montagem no papel , chega-se então, à edição. E entra em cena o editor. Esta é uma
instância intelectual por excelência neste processo de trabalho; pode-se chamar a edição
de segunda direção. O alto custo de uma estrutura de pós-produção torna obrigatória a
máxima eficiência de seu uso; alguns trabalhos podem por sua natureza exigir mais tempo.
Pressões para apressar sua edição podem compromete-los.

Sempre há necessidades de pequenas complementações: Um desenho precisa ser
reproduzido, uma imagem de arquivo é procurada para aparar uma aresta na edição, e às
vezes é necessário até produzir imagens adicionais.

Nesse meio tempo, a produção se encarrega de fechar os trabalhos correspondentes
às filmagens, devolve objetos emprestados, finalizar alugueres variados. Além disso, está
providenciando listas de créditos, locuções especiais (em outros idiomas, p. ex.) e toda
sorte de necessidades. A edição cria o produto final, a fita master, que gerará submasteres
para copiagem, sendo arquivada a master no acervo . O fluxograma anexo procura esclarecer
melhor estas idéias.

 

 

 

ATIVIDADES DA PRODUTORA

Na produtora, procura-se reservar uma parte do dia, p.ex., o início da manhã, para as
atividades na casa, organização, planejamento e fechamento de produções, a saída de
equipes; até o final da tarde se desenvolvem estes trabalhos de filmagem, em externas
aproveitando a luz do dia, ou no estúdio, (o que é uma atividade mais concentrada e que
rende mais); já a noite é reservada para a edição, gravação de locuções, alguns trabalhos
mais sutís no estudio, como filmagem de documentos, table-top, e outros. A edição apresenta

um fenômeno de “partida”. Uma vez dada a partida ao processo, quanto mais contínuo o
fluxo de trabalho, maior o rendimento. Realiza-se a captação de imagens com o auxílio da
ENG, a unidade de captação externa, constituída tipicamente de câmera, tripé, monitor,
cabos de interligação, baterias e iluminação básica.

É claro que estamos falando de estruturas médias e grandes. Mas a atitude deve ser
a mesma, caso a produtora seja o lar de alguém, e o equipamento uma câmera amadora
VHS. Estas câmeras permitem a produção básica, a custos muito baixos. E é possível
alugar uma ilha de edição neste formato, por um preço acessível.


É importante fixar critérios de trabalho, para não cair em “simplificações pragmáticas”,
que a pretexto de fugir da complexidade deste processo de trabalho, acaba por chegar a
uma má qualidade de produto, em última análise, sem competitividade no mercado.

O ROTEIRO

O roteiro, concebido a partir de uma idéia, desenvolve-se como um argumento, pode
ser descrito sumariamente através de um story line, uma sinopse ou ainda um argumento.
O roteiro usa de uma linguagem técnica, aplica uma gramática específica. “Decupa”, ou
separa em trechos as ações que um argumento narra, de forma a ensejar soluções técnicas,
de fotografia, cenografia, locações, direção de atores, posições de camera, determina o
tipo de enquadramento, quais as cenas e com que movimentos de câmera1 .

Muitas vezes, a partir de uma notícia de jornal, “Um homem surra sua mulher;
vizinha tenta intervir, acaba levando uma facada”, tem-se aí um storyline pronto, que
praticamente só representa a idéia. Daí para um roteiro, há todo um trabalho de desenvolver
um conjunto de personagens (os personagens marido e mulher que não se entendem;
porque? sua condição de vida, filhos, etc, rotina doméstica. A vizinha - uma mãe de família?
Seus filhos? irmã, irmão?) - uma cenografia: casas de periferia? Bairro? mostra a vida na
periferia? E por aí afora. Ocorre também o desenrolar de um a história, um drama, cujo
clímax é uma agressão a uma boa mulher, querida por todos em seu bairro, agressão fruto
de outro drama familiar, agressão fruto da estupidez e ignorância.

Essa história permite desenvolver no roteiro várias sequências, por exemplo, a
sequência da casa da tal vizinha. Também uma sequência no bar do outro lado da rua, onde
se mostra o contexto do bairro. Naturalmente a sequência da briga do casal, e da agressão
à vizinha; esta puxa uma sequência dos personagens no hospital, etc.

ANÁLISE TÉCNICA

O roteiro sofre uma análise técnica, que definirá viabilidades e soluções a serem
adotadas. Problemas típicos a serem trabalhados: Transporte de pessoas, equipamentos,
objetos e adereços, cenários; alimentação, hospedagens, combustível (carros, barcos, etc.),
passagens de avião; construção de cenografia, maquiagem e preparação de locações;
pinturas, trabalhos de carpinteiro, pedreiro e outros; fornecimento, instalação e desinstalação
de eletricidade; problemas especiais de iluminação; licenças e autorizações; efeitos
especiais (“chuva”, “incêndio”, “tiros”, “acidentes”).

Esta fase gera um mapa de produção e um conjunto de listas de produção, que
serão providenciados em tempos hábeis. E o mapa de produção manterá listado e atualizado
todo o andamento da produção, a nível físico.

 


CRONOGRAMA

Possivelmente o mapa mais importante é o cronograma, que estabelecerá prazos e
“prazos fatais” e poderá ajustar-se às características de centros de pós-produção, locadoras
de equipamentos, cronogramas e agendas especiais, como de artistas requisitados,
pessoas famosas, etc.O cronograma apresenta um espaço correspondente a cada dia da
semana, onde se explana a previsão, que pode ser atualizada. Outro campo conterá telefones
e endereços de todos os participantes. Outro campo ainda poderá conter a escala dos
deslocamentos, a quantidade diária de refeições, enfim tudo que for pertinente.


As áreas mais importantes a serem cobertas são:
 
Necessidades técnicas

  • equipamentos
    equipe
    condições técnicas de produção
    condições técnicas da pós-produção
    materiais de consumo para finalidades técnicas.
    material sensível (fitas para video, filmes, p. ex.)

Necessidades Logísticas

  • transportes
    alimentação
    hospedagem
    autorizações, etc...
    eventualidades (acidentes, p. ex.)
    prazos
    contratos
    divulgação e press-releases
    aluguéis e compras
    pagamentos/honorários/salários

Necessidades Artísticas/estéticas

  • direcionamento da produção
    definição/construção da cenografia/figurinos/adereços/objetos
    de cena
    definição do elenco (casting)
    definição de locações
    equipamentos para efeitos especiais

 


ORÇAMENTOS

A partir dos mapas de produção e do cronograma, é possível elaborar um orçamento
completo. É evidente que é possível fazer um orçamento estimativo, mas dada à quantidade
de fatores envolvidos, é possível errar grosseiramente com estimativas. De uma maneira
geral, a partir do tempo final do produto, é possível fazer uma primeira estimativa. Mas o
orçamento final sempre será detalhado. E as estimativas variam com a categoria do trabalho:
Dez minutos de documentário social são orçados de forma diferente do que um comercial
de automóvel de trinta segundos.

CONCLUSÃO

O exposto mostra que a organização da produção é um verdadeiro processo de
engenharia, muito semelhante ao do controle de uma obra. Daí a necessidade de um
acompanhamento e documentação minuciosa do processo, do início até o fim. Como a
quantidade de detalhes e serem observados é muito grande, resumos de andamento devem
ser analisados junto a produtores e diretores com freqüência, pois pela natureza artística
dos trabalhos, modificações costumam acontecer no decorrer da realização, que deverão
ser ponderados sob aspectos estéticos e financeiros e de viabilidade de realização física,
para a tomada de decisões.

Quando a documentários, o esquema simplifica-se um pouco, mormente quanto à
cenografias, figurinos e adereços (a não ser no que se chama de ‘docudrama’, documentário
dramatizado). Por outro lado, os imprevistos surgem durante documentários podem
merecer atenção redobrada, exigindo sempre um planejamento criterioso para a sua
produção.

De toda maneira, as atividades de produção, principalmente as mais complexas,
envolvem um elemento de risco, do consumo dos recursos com resultados duvidosos, e
este é mais um fator que justifica e muito bem, uma produção bem organizada.


BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

COMPARATO, Doc Roteiro: Arte e Técnica de Escrever para
Cinema e Televisão, Nórdica, Rio de
Janeiro, 1983
BERNADET, Jean C. O Que é Cinema?, São Paulo, Ed Brasiliense,
1985
CAPUZZO, Heitor, Cinema, a Aventura do Sonho , São Paulo, Ed
Nacional, 1983
CAVALCANTI, Alberto, Filme e Realidade, Rio de Janeiro, Ed Casa
do Estudante do Brasil, 1952
MALKIEWICZ, Chris, Cinematography, New York, Prentice Hall Press,
1989
MARTIN, Marcel, A Linguagem Cinematográfica, São Paulo, Ed
Brasiliense, 1990
MILLERSON, G, Video Production Handbook, Lonodon, Focal Press,
Butterworth-1989


David Pennington, out/94, Manaus AM
[email protected]